Corda Bamba

Lançamento público - próximo sábado, dia 30 de Junho de 2012, na Fábrica Braço de Prata, pelas 20 horas, em Lisboa. Uma colectânea de 91 textos, 91 autores, oriundos de Portugal, Brasil e Argentina.

Antologia do amor...



Esperava-te sentado na cama.
Depois de tanto tempo, o nosso encontro ia-se, enfim, realizar.
Ansioso, esperava que acabasses o banho que tinhas ido tomar...
Como numa nuvem inesperada, teu corpo surge à minha frente enrolado num robe de veludo azul.
Levanto-me, e recebes-me com um largo sorriso.
Nossos olhares, ternos, doces, acariciam nossos corpos, e desvendam desejos e segredos que desde há muito tempo queríamos revelar e satisfazer.
Aproximo-me, e enlaço teu corpo ainda húmido, pintalgado por uma ou outra gotícula da água do banho, e beijo suavemente o rosado de teus lábios.
Quando, de tua parte, sinto neles uma maior pressão, afasto-me.
Não quero pressas...
O desejo, por mais forte que seja, deve manter-se à distância ideal para encontrar a sua doçura mais apurada, encontrar ritmo próprio, ideal, e tornar sua seiva mais forte ainda. Mais uma vez te afasto levemente, e como magia, teu robe, lentamente, vai caindo no chão.
Aprecio, pela primeira vez, os teus lindos seios, redondos, nem grandes nem pequenos, que afago lentamente com a palma das minhas mãos. Os seus bicos rosados, túmidos, quase lacrimejando, despertam vontade de os esmagar, esfregar, apertar…

Mas não…
Afago-os levemente com a ponta dos dedos, e curvando-me um pouco, toco-lhes levemente com a língua e os lábios, que humedecidos e quentes, se deixam beijar e chupar. Sinto teu corpo quente a entregar-se, a estremecer...
Com as tuas mãos finas, tentas levantar-me a cabeça para me beijar.
Resisto a essa pressão e doce tentação, que já não era só tua mas também minha, e continuo fazendo círculos com a língua, chupando levemente os mamilos, que mais me parecem dois frescos morangos amadurecidos.
E eles, gratamente, retribuem, ficando ainda mais duros, hirtos, eriçados…
Não suportando mais.
E como por artes mágicas, caio de joelhos a teus pés, e os meus lábios percorrem a tua cintura estreita, o teu umbigo, o teu ventre ovalado, as tuas coxas, as tuas virilhas…
E lentamente, pressiono para que afastes as pernas, e me deixes apreciar o teu favo de mel e os teus pêlos sedosos e alourados…
Páro!...
Páro e penetro no teu doce olhar, como que a pedir autorização para os beijar, acariciar, penetrar…
Mas tu, com ambas a mãos, agarras-me na cabeça e puxas-me levemente para cima, beijando-me sôfregadamente.

Agora sim.
O beijo é mais demorado, mais profundo, mais elaborado, quase arrebatador. Tua língua é doce, esguia, e gosto de a prender na minha boca, de a sentir, e de saborear a sua frescura…
Abraçados, ambos rolando um pouco às cegas, aproximamo-nos da cama.
Deito-te levemente de costas, e continuo cobrindo teu corpo de carinhos, de beijos.
Tu não resistes, e não te limitas a uma participação passiva, no cumprimento de um desejo que já vinha amadurecendo faz tempo, dum tesão que, crescendo, estava já ao rubro. E o teu corpo, cada vez mais faminto, ardendo, desejoso, pronto a ser penetrado, possuído.
A quarentena a que ambos estávamos votados – fruto de uma abstinência quase forçada -, tinha feito de nós dois animais amantes, sequiosos, devoradores, carentes de nos entregar aos prazeres da carne um do outro.

Tomas o comando.
Beijas-me nos olhos, na nuca, na boca, no peito, e vais descendo devagarinho, lentamente, como que a castigar-me, descobrindo sensações e prazeres, até que poisas teus lábios humedecidos na glândula rosada de meu sexo.
Com arte, com galante e elevada perícia, beijas e saboreias docemente, quase que ficas parada, com a língua humedecendo-a, refrescando-a, retardando o clímax inevitável.
O prazer sobe-me pelo corpo e estremeço.
E tu não páras…
Com a língua e os lábios rodopias, abraças o “menino” que massajas com a boca e as mãos, que ameaça lançar fora, o gozo que acumulou durante tanto tempo.
Esforço-me para que tal não aconteça.
Vendo minha excitação, com o propósito de retardarmos a entrega que ambos queríamos, sobes para cima de mim, encavalitas-te tal amadora endiabrada, e com cuidado extremo, cuidado demasiado exagerado e lento para o meu estado de excitação, vais encaixando minha “coisa” na tua “coisa”.
Uma “coisa” ainda apertada, e pelo que sinto quente e húmida, o que denota estares pronta para outras “aventuras e maior actividade. Penetro-te, penetramo-nos os dois revezando, primeiro devagar e depois mais rápido, tentando acertar no ritmo.

O ambiente do quarto ajuda ao relaxamento e à entrega mútua.
Tinhas tido o cuidado e o bom gosto de preparar o cenário, colocando um lenço vermelho nos candeeiros, o que dava uma côr mais excitante aos nossos corpos, umas velas de aromas da natureza excitavam ainda mais, tudo abraçado a uma melodiosa música ambiente.

Nossos corpos identificam-se um com o outro, falam a mesma língua, e comportam-se como se se conhecessem desde o paraíso de Adão. A luz do luar que ilumina o horizonte da campina penetra por entre as cortinas, embeleza ainda mais a tua pele morena, macia, doce, acetinada, e acelera ainda mais a excitação e o desejo de me desfazer num gozo retraído.
Tu cavalitas por cima de mim, beijas-me, suspiras, respiras forte, pronuncias uns “ais” roucos, meio sumidos e prolongados… e eu, forçando mais um pouco o ritmo e a profundidade, aperto teu rabo com as duas mãos, beijo teu rosto suado, e….

Uns suspiros profundos… assinalam o prazer que acabamos de partilhar.

Afonso Rocha
Num sítio qualquer, nas profundezas do Mundo 

Lágrimas do meu choro..



Lágrimas que molham,
que retalham o meu rosto.
Lágrimas que escorrem,
que retratam o meu desgosto.
Marcas de saudade,
da saudade e de meu choro...

Um rosto sadio,
de alegre e aberto sorriso,
lágrimas rebeldes caídas,
de saudade ou lamentos,
sinais de angústia,
de alegrias ou sofrimentos.

Afonso Rocha

Delicadeza

"O amor é passagem possível para um estágio de súbita delicadeza, desejos que se conjugam, verbo derramado com a generosidade do alimento farto.
Então, em caso de amor, não corrijam meus possíveis erros com exaltada fala ou com interpretações duras. Antes, reconheçam que aquilo que se vive por amor será, no fim de tudo, a única força capaz de reverter o imponderável encontro com o vazio, iluminando os dias passados com pequenos insights de felicidade."

Célia Musilli, "Súbita Delicadeza", In Todas as Mulheres em Mim)